
Caros leitores, peço perdão pela demorada ausência em postar aqui! São tantos afazeres, estes nossos do cotidiano, que muitas vezes a inspiração e tempo para escrever não chegam. Mas é tempo de música e vamos voltar ao trabalho!
Hoje vou comentar um disco que marcou história na música popular brasileira. Não só por sua forma inédita de composição para a época mas pelo conteúdo político implícito, sem deixar de lado o fomento e o tesão pela vontade de alguns jovens de fazer boa música. O que começou com uma brincadeira, uma reunião de amigos músicos em Minas Gerais, culminou numa das mais influentes obras da MPB: o álbum
Clube da Esquina de Milton Nascimento e Lô Borges.
A história começa na Belo Horizonte de 1963. Pelas escadas do Edifício Levy, no bairro Santa Tereza, circulavam os pés de vizinhos muito inspirados. Milton "Bituca" Nascimento, os irmãos Lô e Márcio Borges, o pianista Wagner Tiso e o cantor Marílson compartilhavam idéias e sons.
Juntaram-sem pra cantar e compor, formando primeiramente um grupo chamado Evolussamba, que não durou muito, mas foi forte o bastante para unir cada vez mais Milton e Tiso, levando-os a se juntar agora com um baterista chamado Paulinho Braga para formar o Berimbau Trio. O grupo existiu por algum tempo, mas as carreiras de seus integrantes só começavam a crescer.
Entre idas e vindas, partidas e chegdas, surgiu dessa grande amizade entre todos eles, um clube diferente: formado ali mesmo na esquina das ruas Paraisópolis com Divinópolis (sugestivo?), na calçada do prédio, onde tudo se passava, que surgiu o Clube da Esquina. Alguns anos se passaram e mais "sócios" apareceram: Beto Guedes, os irmãos Cláudio e Flávio Venturini (futuros fundadores do famoso 14 BIS), Toninho Horta, Fernando Brant e Ronaldo Bastos, que escreveram algumas letras de canções memoráveis. O por quê do título Clube da Esquina? Bastava perguntar a Dona Maria, mãe dos irmãos Borges, onde estavam os meninos e ela respondia: "Ah, com certeza estão lá na esquina, cantando e tocando violão!" :)
Nesse meio tempo, em 1967, Milton Nascimento ganhou destaque nacional ao ter tocado três canções e ter uma delas ficando em segundo lugar no II Festival Internacional da Canção. Isso o projetou a ponto de conseguir um contrato com a gravadora Odeon para, finalmente, lançar o Clube da Esquina.
Lançado finalmente em 1972 (depois de muitas dificuldades), o disco apresenta uma significativa revolução sonora para sua época: misturando de tudo um pouco de rock, jazz, bossa, toadas, canções populares, o Clube I inova nas letras por cantar um Brasil velado na repressão militar e uma América Latina vasta e linda, porém sofrida. Abrindo com Tudo Que Você Podia Ser, Milton canta versos com seu inigualável timbre falando sobre sonhos frustrados e uma crítica velada (a primeira de muitas no decorrer do disco) à repressão: "Sei um segredo/Você tem medo, só pensa agora em voltar/Não pensa mais na bota e no anel de Zapata" (em clara referência a Emiliano Zapata, líder da Revolução Mexicana).
Contracapa do discoUm toque triste de lamento e melancolia vem em Cais, com letra assinada por Ronaldo Bastos:
"Eu queria ser feliz/Invento o mar/Invento em mim o sonhador". O primeiro contraste nos estilos de composição de Milton e Lô é agradavelmente percebido na virada para a terceira faixa, O Trem Azul. Cantando com carisma solto e com carinho, Lô Borges faz sua primeira aparição no disco e Ronaldo Bastos faz uma brincadeira interessante com as palavras do refrão: "Você pega o trem azul/O sol na cabeça/O sol pega o trem azul/Você na cabeça/O sol na cabeça". É uma daquelas músicas que faz bater na gente aquela vontade de pôr uma mochila nas costas e... literalmente viajar!
Percussão rica e uma aula-relâmpago de história vem na curtíssima Saídas e Bandeiras nº 1, de apenas 0:45s!!! Outra característica inovadora do disco, as faixas de pouca duração, mas que conseguem dar o recado: "Sair dessa cidade ter a vida onde ela é/Subir novas montanhas, diamantes procurar" numa referência história à exploração bandeirante na época do Brasil colonial.
Poesia é o forte do disco, que não perde o encantamento e a sensação de "pé na estrada" em Nuvem Cigana: aqui, a voz de Milton nos brinda com melodias interessantes e um refrão cativante em contraponto a uma discreta (porém eficiente) orquestração. Sem falar das belas letras de Ronaldo Bastos: "Se você deixar o coração bater sem medo/Nos seus cabelos verdes/Sol, sereno, ouro e prata/Sai e vem comigo/Sol, semente, madrugada/Eu vivo em qualquer parte de seu coração". Um pouco de samba e cantigas de roda colorem a sexta faixa, Cravo e Canela, com versos tão deliciosos quanto seu título ("Ê morena quem temperou/Cigana quem temperou/O cheiro do cravo/Ê cigana quem temperou/Morena quem temperou/A cor da canela").
A sétima faixa, Dos Cruces, é uma versão para a música do compositor espanhol Carmelo Larrea, popular em toda América na década de 1960. Canção triste, de apelo dramático - Estan clavadas dos cruces/En el monte del olvido ("Estão cravadas duas cruzes/No monte do esquecimento")
Outro clima misto aparece em Um Girassol da Cor de Seu Cabelo - letra belíssima e romântica, contrastando com um piano meio sombrio ao final da canção. San Vicente é um clássico que canta nas entrelinhas o repúdio à opressão dos regimes ditatorias que assolavam a América: "Coração americano/Acordei de um sonho estranho/Um gosto vidro e corte/Um sabor de chocolate/No corpo e na cidade/Um sabor de vida e morte".
O disco segue com uma composição exclusiva dos irmãos Borges: Estrelas. Aqui, mais uma curta poesia cantada de apenas 0:28s - "Poeira, na noite/A festa da noite/Guerreira, estrela da morte/Festa negra amor/Mas é tarde". Só isso!!! Mas tudo temperado com uma bela orquestração e a voz de Lô. A faixa número onze é a que leva o título do álbum, a instrumental Clube da Esquina nº 2. É uma das minhas favoritas pela beleza de seus simples violões e mais ainda pela voz fantástica de Milton Nascimento, apenas solfejando uma melodia triste. Anos mais tarde, foi regravada e ganhou letras pelas mãos de Flávio Venturini.
Paisagem da Janela, a número doze do disco, tornou-se um dos maiores sucessos da MPB pela voz de Lô Borges: "Cavaleiro marginal/Lavado em ribeirão/Cavaleiro negro que viveu mistérios/Cavaleiro e senhor de casa e árvores/Sem querer descanso nem dominical", e o refrão marcante e repetitivo, "Você não quer acreditar, mas isso é tão normal, você não quer acreditar...". Me deixa em Paz é puro samba e conta com a participação da sambista carioca Alaíde Costa. Os Povos apresenta uma excelente letra, um retrato do cotidiano dedicado "aos povos" da América. Temos, na faixa quinze (ô disco grande!), uma continuação: Saídas e Bandeiras nº 2, agora falando da volta dos bandeirantes (provavelmente fracassados de suas expedições): "O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé?/O que vocês fariam pra sair dessa maré?"
Milton Nascimento, o mais famoso "sócio" do ClubeÉ difícil descrever um disco tão belo e bem escrito sem ter elogios que se repetem. Mais climas intrincados, melodias interessantes alternando entre o triste e o alegre, o doce e o salgado, vêm nas últimas faixas, Um Gosto de Sol, Pelo Amor de Deus, Lilia (instrumental), Trem de Doido, Nada Será Como Antes (que se tornara um grande sucesso de Milton), terminando com Ao Que Vai Nascer.
Mas nem sempre de poesia foi feita a história do Clube: o grupo sofreu duras críticas e perseguições à época, pela mesma Imprensa que hoje os elogia. Milton Nascimento e sua trupe chegaram a ser banidos de alguns clubes de BH e, para não cair em depressão, os músicos se entorpeciam com álcool e drogas. Era difícil encarar as crueldades do showbiz. Mas tudo isso não deixou que esta obra se tornasse um marco. Foram reconhecidos e muito elogiados por um ilustre mineiro, o então ex-presidente da república Juscelino Kubitschek, na famosa foto em que se encontram por acaso numa esquina de Diamantina na década de 1970. Carismático, JK chegou a fazer um enigmático elogio aos meninos: "Vocês são de morte!"
O ex-presidente JK e "os sócios"Muitas e muitas outras histórias foram escritas por estes mineiros e podem ser lidas com mais detalhes em algumas publicações como o livro
Os Sonhos Não Envelhecem - Histórias do Clube da Esquina, de autoria do próprio Márcio Borges e
Travessia - A Vida de Milton Nascimento, de Maria Dolores (abaixo).
Enfim, se eu for falar mais, creio que ninguém aguenta mais ler! Mas a dica está dada e, sempre que possível, façam a viagem sonora que este fantástico disco propõe.
Apreciem sem moderação!